Diário do prisioneiro Fritz Dolgner

As fotografias do diário foram-nos entregues pela tri-neta de Fritz Dolgner, com a autorização para as utilizar. A capa original continha apenas a indicação “Tagebuch”, mas, durante o processo de restauro, a família acrescentou a contextualização acima como informação adicional. A seguir, são apresentadas alternadamente três páginas fotografadas e, depois, a respetiva transcrição.
Um interessante contraponto a este diário é o romance histórico “Prisioneiro de Guerra nos Açores”.
O diário revela já, numa fase inicial, uma relação ambivalente com os portugueses, ao distinguir entre estruturas criticadas e indivíduos avaliados positivamente, bem como uma população maioritariamente germanófila. O romance mostra como estes elementos descritos poderiam, numa perspetiva temporal mais alargada e após o fim da guerra, evoluir para uma relação mais consistente. No seu conjunto, o romance pode ser lido como uma continuação, ampliada no plano temporal e narrativo, das interações já esboçadas no diário. Do mesmo modo, ambos os textos evidenciam até que ponto a auto-organização e a vida cultural estruturaram o quotidiano durante o internamento. São igualmente notáveis certas paralelas, apesar de o diário não ter servido diretamente como fonte, tendo antes sido utilizadas narrativas familiares como inspiração

Titelblatt
Tagebuch / Diário
Diário do internamento na Ilha Terceira [Tagebuch der Internierung auf der Insel Terceira]
do Avô Fritz [von Opa Fritz]
21/4/1916 a 20/8/1916 [vom 21/4/1916 bis 20/8/2016]
Os Avôs foram libertados a 26/10/1919

Préambulo
Meine Internierung
auf
Insel Terceira
Azoren


Minha Internação
na
Ilha Terceira
Açores

1.
Internado
Era no dia 21 de Abril 1916, quando entrei de manhã no novo escritório técnico. O senhor D.Silva, o chefe da secção comercial, estava lá também e deu me logo o Século, perguntando, se eu já tinha lido; respondendo, que não, disse-me: “Leia la, mas não se excite sem necessidade”. Não me palpitou uma boa nova e certo, lá estava o decreto do qual já se tinha falado tanto. Todos os alemães são expulsos, exceto os homens entre 16 e 45 anos. Ainda continha mais parágrafos que não pertencem cá, ou não têm tanto interesse. Segundo o decreto, fui imediatamente ao comandante da guarda republicana no Barreiro para me apresentar. Mas, como este senhor não tinha ordens, deu-me o certificado da minha apresentação e disse-me que esperasse segundas ordens. O dia 21 era 6ª feira santa, então no sábado de manhã trouxeram os jornais de Lisboa, colunas

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inteiras sobre o embarque dos prisioneiros alemães. Eu nem queria ir almoçar, mas sim tratar das minhas coisas, mas o Dr. Deutsch, nosso Diretor técnico tanto falou até que eu resolvi ir. Eu estava furioso, pois do meu chefe tinha as melhores seguranças e promessas, mas quando chegou o momento crítico, não tinha ninguém que me desse ao menos um bom conselho. O meu chefe não tem culpa, pois ele estava com a sua família em Buçaco, para lá passar a semana santa e a Páscoa. Mas de todos os outros senhores pode dizer-se que não houve ninguém que mexesse um dedo no meu interesse. De uma maneira é bom assim, pois agora não sou obrigado a ninguém. Quando voltei do almoço, eram pouco mais ou menos duas horas, já andavam à minha procura. O comandante da guarda republicana desejava falar-me. Chegando lá recebi a ordem de me apresentar já, pois tinha de sair do

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Barreiro às 3h 53m para me apresentar ao Estado- -Maior-General em Lisboa. Não me podiam dizer nada se eu ainda voltava, ou se tinha de levar já malas e tudo. O senhor D. Silva desapareceu por completo, apesar de saber o que se passava. Estou convencido que ele esperava saudosamente o meu internamento, pois eu fui sempre um obstáculo para a realização dos seus projetos automáticos e nunca compartira as suas opiniões ou aceitava ordens dele no serviço técnico. Por causa da guerra tinham tido logo mudanças bastante grandes no alto pessoal técnico. Estes novos diretores, químicos, etc. tinham ordem do patrão de deixar-se aconselhar pelo senhor D. Silva em questões administrativas. Aproveitando essa ocasião, ele procurou realizar o seu já muito antigo sonho de ver-se como Diretor- Geral das fábricas de Barreiro. Às 3h 53m da tarde, parti então do Barreiro e cheguei às 5 horas ao Estado-Maior-General. Lá deram-me

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uma carta de acompanhamento para a comissão de transportes marítimos, aonde devia chegar às 7h 30m da noite. Eu opus, que tinha poucas roupas e precisava voltar ao Barreiro para buscar mais, mas não se importaram com isso. No caminho para o cais entrei ainda no escritório da casa para me despedir, mas tive pouca sorte, pois o meu melhor amigo Sr. Mello de Barros, não estava lá e um Sr. Dr. Tinoco (secretário do patrão) nunca me pôde atender. Chegado ao cais, mandaram-me esperar e eu aproveitei a ocasião de acabar uma carta para a Laura, que já tinha seguido no vapor do Barreiro para Lisboa. Até aí a excitação e o seguimento rápido dos acontecimentos tinham conservado a coragem, mas durante o escrever fiquei dominado pelo desespero e dor e só com toda a força do meu querer evitei lágrimas e soluços. Tirado de tudo, sem ninguém aproveitar nada disso, expulso

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do lugar e casa, da mulher e dos filhos, que tristeza. Sim, se a minha Pátria aproveitasse com tudo isso, levemente suportaria tudo e mais que fosse. Depois de uma hora de espera partiu o rebocador. Sempre julguei que nos mandassem com um vapor de passageiros; que grande foi a minha surpresa quando o rebocador atracou num vapor transatlântico onde eu não pude descobrir cabinas de passageiros por mais que eu olhasse. Com o coração já suprimido, saltei a plataforma da escada e subi até ao coberto. Chegado em cima, fui recebido por um suboficial de marinha. Este senhor era bastante delicado e amável, certamente ao contrário do marinheiro que estava de sentinela na entrada e que era novo, mas muito bruto e atrevido, apesar da sua grande juventude. Depois da revisão da minha bagagem, para ver se continha armas ou materiais explosivos, pedi então ao suboficial para me

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indicar o meu lugar. Vamos então ao porão n.º 3; chegando ali, parou e apontando com o dedo para abaixo, disse: “Aqui em baixo”. Olhei para lá e o que eu vi fez-me ainda mais oprimido e triste do que eu já estava. O que eu vi foi um caos de colchões, cobertores, almofadas, malas e baldes. Bem lá em baixo no porão era a nossa sala de dormir, sem janelas nem nada. Instalaram-nos como os porcos. Nada mais que um colchão no entrecoberto de ferro, ainda cheio de lixo e nalguns sítios húmido era a nossa cama; para cobrir, dois cobertores e uma almofada para a cabeça. Quando cheguei, encontrei ao pé da entrada para o porão alguns patrícios meus. Perguntando onde estavam os outros, respondeu-me um: “Espere um pouco: uns estão ainda no salão de jantar; outros na sala de leitura e alguns estão talvez na sala de fumo.” Fiquei surpreendido, pois não sabia, se

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ele falava a sério ou a brincar. Vi depois que era brincadeira, pois todos se riam e o que tinha respondido, conheci logo por um berlinês por causa do dialeto que ele falava. Como os berlineses em toda a Alemanha são conhecidos por verdadeiros humoristas, já não tinha dúvida em que sentido a resposta era dada. Este senhor era o nosso palhaço durante toda a nossa viagem enquanto ele não estava enjoado. Levei então a minha bagagem para baixo e voltei para cima para procurar um ou outro conhecido que ali talvez estivesse. Não tardei a encontrar o Sr. “Paul”, um bem conhecido meu de Lisboa. Estando nós a conversar, apareceu o Sr. Harting. Este senhor e um dos dois proprietários da agência de vapores de Marcus & Harting em Lisboa. Esta agência tem a representação de todas as companhias de navegação alemãs, no caso de elas quererem ter aí um representante. Eu já conhecia o

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Sr. Harting de vista e sabia que ele era muito amigo do meu patrão, pois este último tinha-mo dito havia cerca de 15 dias. Também a ele tinha o meu patrão dado a garantia de ficar livre e não ser internado. Mas não se podia fazer nada, pois a execução de todos os decretos estava em poder da força militar. O Sr. Harting estava muito zangado sobre a maneira do nosso tratamento. Ele e Sr. Paul ajudaram- me a procurar os pertences da minha cama, pois eles já sabiam onde estavam os melhores colchões, cobertores, etc.; apanhei assim dois colchões, três cobertores e duas boas almofadas. O Sr. Paul ajudou-me fazer a minha cama e às 9 horas estava então instalado. Ainda me deram a bordo uma ceia composta de dois grandes bocados de pão muito seco e um pouco de queijo. Comi por comer, pois apetite não tinha nenhum. No saco de excursão tinha comida para dois dias, mas não a queria encurtar.

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Até às 10h ou 10h 30m ficamos no coberto, passeando e conversando. Depois deitámo-nos. Dormi normalmente até às 5h da manhã, então acordei por motivo de uma dor fortíssima. O meu abcesso, que eu tinha, abriu-se e, por isso, tinha logo que subir ao coberto. Às 6h comecei-me a vestir. Só para me lavar levei meia hora, pois não havia lavatórios nem coisa que se parecesse com eles. Achei um balde, que servia para despejos. Apanhei-o e lavei-o com sabão e uma escova que eu tinha e depois lavei-me nele e assim fui-me lavando durante uma semana, todas as manhãs. Para as senhoras, é claro, era impossível de se lavar e mudar de roupa; que vida! Às 7h deram-nos café sem leite, mas com açúcar e pão, mas já muito seco. Só podia comê-lo fazendo-o em sopas no café. Domingo de Páscoa, um dia lindíssimo, quente e claro, cheio de sol. Mas no meu peito, profunda tristeza e

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nada de alegria da ressurreição. Para o coberto da ré ainda tinham chegado mais passageiros durante a noite. Eram dois bois, uma vitela, três porcos e um carneiro. Os dois bois estavam presos, mas os outros animais passeavam livremente entre nós, uma sociedade fina e elegante, não há dúvida! No coberto e na parte tapada da entrada do porão, alguns dos nossos tinham posto cadeiras de bordo e em cima delas estavam deitadas ou sentadas as senhoras que acompanhavam os seus maridos ao exílio. Todas elas tinham as caras coradas de chorar e as fisionomias tristes. O dormitório comum também não era nada menos agradável. Homens, senhoras e crianças, tudo dormia junto na mesma casa. Ninguém se podia despir completamente. Naturalmente houve exceções, nem podia deixar de ser, pois a gente está em Portugal. Para as senhoras Gottschalk e Schmidt, arranjaram se duas cabinas de oficiais, de maneira, que

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essas duas senhoras eram as mais felizes, pois também comiam no salão pequeno, que em tempo de paz é reservado para o capitão, o imediato e 1.º engenheiro. O almoço foi às 10h, já não me lembro o que houve, mas sei que ainda se podia comer. Éramos só 45 pessoas; mas durante a tarde chegaram ainda os alemães do Porto. Eram, com senhoras e crianças, cerca de 35 pessoas, de maneira que éramos, todos juntos, cerca de 80 pessoas. Já eram 12 famílias e, por isso, foi o porão n.º 4 reservado para 10 matrimónios. Mas no n.º 3 ainda ficaram duas famílias que antes queriam ficar connosco. Também embarcaram ainda militares. Um capitão, dois alferes, dois sargentos e cinquenta praças foram mandados para nos acompanhar. Muito aborrecidos passamos o primeiro dia. Ninguém, nem o comandante do transporte, sabia o dia da partida e o destino. Tudo isso contribuiu para nos fazer mais tristes e desesperados.

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Começou a segunda-feira. Apesar de eu ter escrito à C.U.F., não apareceu nin- guém a bordo, nem apareceram notícias de ninguém; isto também não me causou alegria. Durante o dia chegaram ainda os últimos dois alemães. Um era o Dr. Hasse, um malandro e ladrão de marca, como mais tarde se verificou. O outro era o Sr. Stüve, irmão mais novo do cônsul da América do Norte no Porto. O cônsul já tinha vindo no domingo, mas o irmão quis fugir para Espanha, como se vê, sem sucesso, pois foi apanhado. Às quatro horas da tarde já nos deram o jantar. Lá houve então uma surpresa, mas uma surpresa desagradável. Os pratos de louça, dos quais nós tínhamos comido, desapareceram e deram-nos então umas tigelas de lata. Para beber, também tínhamos púcaros de lata, A comida foi muito pior do que as refeições anteriores. Custou-nos muito a comer e houve muitos

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que nem provaram ao menos. Eu comi alguns bocados, mas depois desisti e comi só pão já seco e duro, mas ao menos era mais limpo. Durante o comer tivemos os primeiros sinais da partida. Foi experimentada a hélice e a máquina do leme. No coberto havia bastante movimento, marinheiros e mestres correram para aqui e para acolá. À tarde tínhamos tido a visita do Leote do Rego, desse ladrão e nosso pior inimigo em Portugal e nós tínhamos logo calculado que ele queria fazer a última inspeção, pois ele é comandante da divisão naval. Às 6h 30m da tarde, começou o corpo do navio a tremer e o bravo “Taygetos”, agora chamado “Sagres”, começou a deslizar vagarosamente pelas águas turvas do rio. Destino da sorte! Num navio alemão roubado, somos mandados para o exílio para a prisão. Nos colchões roubados, abaixo de cobertores roubados, dormimos

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e com talheres roubados, comemos. Pois tudo o que nós tínhamos à nossa disposição era tirado dos navios alemães. Com meia força, andamos o rio abaixo, ainda não sabendo que destino a nossa sorte nos dava. Algés, Belém, Paço d’Arcos e outras praias passaram à nossa vista. Em linha curva, passamos a barra. Um lindo pôr do sol. O céu e as nuvens eram um mar de fogo e ouro. Lá, a baía de Cascais, conhecemos bem a Boca do Inferno, mais para atrás as serras de Sintra, coroada com o palácio da Pena e as ruínas dos antigos castelos dos mouros.

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A amargura sobe-me ao coração. Há oito anos estou neste, apesar de tudo, tão lindo país. Cinco anos e meio de vida de família, cinco anos e meio de trabalho para fundar a minha casa, o meu lar, muito trabalho, mas também muitos, muitos dias e horas alegres e tão felizes. E agora tirado de tudo que se ama, expulso disto tudo, para que se combateu, para que se teve tantos cuidados e preocupações. Conglomerado com bois, porcos e carneiros, quase tratado como os próprios animais, justamente como a gente não tivesse direito de existir nesse mundo de Deus, e porquê? Porque somos alemães, porque a nossa grande e bela Pátria cresceu demais, segundo a opinião dos seus vizinhos mais invejosos. Isso que nós sofremos, para a nossa Alemanha, para a nossa Pátria tão querida, e ainda o único consolo que nós temos. Ao contrário, temos de reconhecer a Pátria não lucra nada com isso e isso é

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o que nós lastimamos bastante. Mais uma vez voa o nosso olhar sobre a costa. A cúpula e as janelas do Castelo da Pena refletem o ultimo ouro do por do sol, como nos quisessem mandar o último adeus. À nossa direita, está um “destroyer”, que fuma de todas as chaminés. Ele acompanhava-nos na nossa viagem nas primeiras 100 léguas, para nos guardar contra submarinos ou outros ataques alemães. Ó estúpidos portugueses! Imaginais que os submarinos alemães não têm outras coisas para fazer? O destroyer põe-se em marcha e vagarosamente anda atrás de nós. Rumo, noroeste para oeste, direção para os Açores. Pouco depois sabemos que vamos para a ilha Terceira. A noite está suave e estrelada. Pouco a pouco desaparecem os faróis pequenos à nossa vista Somente o fogo do farol do Cabo da Roca ainda se vê e fica visível durante quase toda a noite. De repente, sente-se um

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grande movimento entre nós, ouve-se o soluçar e chorar de algumas senhoras; indo saber a causa, vejo, que se distribui cintos de salvação, primeiro para as senhoras e os homens casados. Eu não me pude resolver a aceità-lo. Às onze horas, aproximadamente, foram-se todos deitar. O mar estava quase completamente liso e o navio balançava muito pouco, apesar de não estar nada carregado e navegando só com lastro. Quando ao outro dia quis subir ao coberto, já o vapor balançava mais, e ao subir a escada, era preciso ser mais cauteloso. Da viagem não se pode fazer grandes narrativas, pois tudo passou-se normalmente e não aconteceu nada de extraordinário. O movimento do mar cresceu de dia para dia e, portanto, também o balanço do navio. Na quinta e sexta-feira, chegaram as ondas à sua maior altura. As senhoras enjoaram todas, exceto duas, as senhoras “Kramer” e “Gottschalk”.

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Dos homens adoeceram talvez a quarta parte. Eu felizmente fiquei plenamente bem. A comida piorava de dia para dia. Houve refeições que tinham um aspeto menos apetitoso que a comida que se dava ao nosso Reno. Cinco dias seguidos era o meu almoço batatas cozidas com casca, as quais comi então com sal. O pão era seco e velho, pois já o tinham tomado a bordo em Lisboa. O peixe que nos davam também não podíamos comer, pois a maior parte das vezes cheirava mal; não era outro peixe senão sarda salgada e bacalhau já meio podre. A sopa do jantar cheirava duas vezes a azedo e era feita de restos da comida dos oficiais. A única coisa boa eram as bolachas feitas de farinha, água e sal, que nos davam para o café. Elas eram frescas e sabiam bem. Os oficiais eram amáveis e delicados para nós, mas também tinham as suas instruções e não podiam fazer nada a nosso favor.

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A mesa onde a gente comia era feita por nós dumas caixas velhas de petróleo e uns tabões. Passamos os dias tristes e aborrecidos até à tarde da sexta-feira, dia 28 de Abril. Nessa tarde avistamos formações de nuvens que nos indicavam a proximidade de terra. Aproximava-se o fim da nossa viagem. O rumo que tinha sido mudado era agora “sul para oeste”. Como o tempo já chegava para estar na Terceira, descobrimos então que tinham feito grandes voltas, evidentemente para evitar submarinos ou corsários alemães. Nesse dia ainda não avistamos terra. Quando chegamos ao coberto, no sábado de manhã, tínhamos rumo “norte para este [sic!]” e tínhamos ao lado de bombordo uma ilha bastante grande à vista. Era “Fayal”. Este, o ultimo dia da nossa viagem, foi muito interessante. A seguir, passamos ainda as ilhas do “Pico” e S. Jorge e tão perto, que nas aldeias e vilas podíamos diferenciar as casas, ruas e largos sem vista armada. As 3h ou 4h da tarde, avistamos o alvo

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do nosso destino, a ilha Terceira, e às 6h, ancoramos na baía de “Angra do Heroísmo”. Uma pequena meia hora depois saiu o nosso comandante, capitão de corveta, em farda de parada, e foi a terra. Imediatamente apareceu o boato que a gente tinha de desembarcar no domingo, às 8 horas da manhã. O tempo era tristonho e húmido, mesmo melancólico. Como todo o arquipélago das ilhas dos Açores é de origem vulcânica, é claro que todas as ilhas são mais ou menos montanhosas. A cidade de Angra do Heroísmo estende-se nas encostas e algumas ruas chegam quase para dentro das serras. A ilha parece bem arborizada e verdejante, e é claro que o clima suave e húmido é muito favorável para uma rica e viçosa vegetação. No lado sudoeste da baía está situada uma península com o monte Brasil e o antigo já muito arruinado castelo de S. João de Baptista./p>

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Começou a escurecer, e depressa tínhamos de acabar as nossas observações. Em vista daquele velho e obscuro castelo, não nos vinham ideias agradáveis, e justo não tardou, e já se ouvia dizer que nós seríamos interna- dos todos juntos no castelo de S. João Baptista e não, como nós julgávamos, nas casas da cidade. Durante a viagem, tinham-nos dito que nós tínhamos plena liberdade pessoal em toda a ilha; também essa esperança tivemos que enterrar e quando aparecemos no domingo no coberto, só se viu caras aflitas e tristes. Para nós, já era certo que ficaríamos juntos no castelo, tal como no vapor. E a comida? Qual? Comeremos rancho. Um começo triste, parece o dia mais triste de toda a minha vida, exceto aquele quando a minha amada me disse que não me queria. Pois bem, isso já aconteceu acerca de 12 anos, mas também foi assim pouco depois da Páscoa.

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Éramos a causa dum interesse muito vivo do lado dos habitantes de Angra. Sem interrupção, vinham e iam pequenos barcos de gasolina cheios de gente que queria ver os alemães. Os barcos andavam à volta do nosso navio. Alguns dos passageiros desses barcos eram bastante amáveis e cumprimentavam e acenavam com lenços para nós. Mas também se ouviu gritar: “Abaixo a Alemanha”, “Morra o Imperador”, e “Viva a Portugal”. A alimentação clássica durante a viagem, as preocupações que cada um de nós tinha e os boatos que corriam já nos tinham feito tão apáticos e indiferentes, que ninguém ligava importância nem aos “morras”, nem aos “vivas”. Durante a manhã ouvimos então que desembarcaríamos de tarde, às 5h 30m. De facto! Pouco depois do meio-dia, buscaram os nossos cobertores e almofadas, mas á noitinha vinha então a ordem

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que somente na segunda-feira, dia 1 de Maio, íamos ser transferidos para o castelo. Tornaram-nos aí a dar um cobertor a cada um e dormimos então a ultima noite a bordo completamente vestidos. No dia seguinte, às 8h da manhã, já nos deram o nosso almoço, que era excecionalmente comestível, e as 9h, entramos nos barcos que nos deviam trazer para terra. Os oficiais que nos acompanhavam eram tão delicados de não passar connosco pela cidade, para não nos expor à curiosidade dos habitantes. Desembarcamos diretamente abaixo do castelo. Os outros caminhos para o castelo estavam cerrados, de maneira que ninguém nos incomodou. Até tinham comandado alguns soldados para que eles levassem a nossa bagagem miúda para cima. Tudo isso deu-nos uma boa impressão. Vagarosamente, subimos para o castelo. Chegados ao pátio, mandaram-nos

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esperar e entregaram-nos o regulamento; cada um recebeu um exemplar imprimido. Lá tínhamos então uma surpresa agradável. Além de outros parágrafos, havia um que nos permitia a completa liberdade em todo o Monte Brasil. Isso era uma coisa bem aceitável, pois dava-nos ocasião suficiente para o nosso movimento ao ar livre. Durante a nossa subida para o castelo, encontramos dois fotógrafos, mas evitámos que eles nos fotografassem, pois baixamos as cabeças, de maneira a não poderem ver as nossas caras. Depois de termos esperado alguns minutos no pátio, fomos chamados em grupos para nos indicarem os dormitórios. Primeiro, chamaram as famílias, depois nós outros, atualmente viúvos e solteiros. Eu fiquei num quarto com mais dez camaradas, o quarto estava fortemente ocupado, mas ainda assim estávamos ali melhor que no vapor.

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Nos quartos não estava outro mobiliário senão as camas, as quais eram compostas de dois cavaletes de ferro, três tábuas, um colchão de palha, um travesseiro de palha, dois cobertores, dois lençóis e um saco para o travesseiro. Para que não andássemos como um rebanho de carneiros, tínhamos resolvido escolher um Chefe. A eleição teve lugar no pátio durante a nossa espera, e o nosso eleito representante foi o Sr. Harting. A primeira reclamação, que nós fizemos foi por causa das camas. Causa: Colchões mal cheios, parcialmente palha húmida e cheirando a bafio e não somos cães para dormir num saco de palha. Recomendamos então que mandassem buscar os colchões onde nós dormimos a bordo, pois com aqueles nos contentaríamos. Mas, ainda assim, fizemos as nossas camas, ainda contentes por termos uma espécie de camas. O que nós queríamos fazer se nos tivessem dado um braçado de palha e mais nada, como isso tem acontecido

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aos nossos patrícios em Inglaterra e França nos primeiros tempos. Pouco antes do meio- dia chegou um oficial, dizendo-nos que nós fôssemos à uma hora à cantina dos sargentos, para lá almoçar. Disse-nos logo que havia só pão e linguiça assada e vinho. Pediu desculpa, mas disse que ninguém estava preparado para a nossa chegada e, por isso, não podiam arranjar outra coisa, mas que ficássemos descansados, que se havia de fazer tudo para nos contentar. O Sr. Harting já tinha começado a combinar a maneira da nossa definitiva alimentação. Chegamos ao seguinte resultado. “Por cabeça e por dia, pode gastar-se não mais que 400 reis. Nós temos de formar uma comissão, que tem de fazer a composição das compras. O pessoal da cozinha fica a nosso cargo. Não recebemos dinheiro, mas temo-nos de governar com uma tabela que prescreve o seguinte, por cabeça e dia: 500 gr de carne, 450 gr de pão, 30 gr de gordura (banha), 150 gr de legumes secos

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0,4 ltr de vinho, 15 gr de café, 30 gr de açúcar, 15 gr de sal e 2,6 kg de lenha. Temperos, como cebolas, pimenta, canela, cravinhos, etc. são fornecidos separadamente. Agora há as tabelas de substituição; a aplicação dessas tabelas permite bastantes variações. Segundo essas tabelas, podemos receber: em lugar de 500 gr de carne, 8 ovos ou 12 ltr de leite ou 500 gr de peixe fresco e mais algumas outras coisas que não me lembro. Em lugar de 750 gr de pão, há 3,9 kg de batatas, 550 gr de farinha de qualquer qualidade; bolachas, a quantidade dessas últimas depende da qualidade. Em lugar dos legumes secos, 1,5 kg de hortaliça ou legumes frescos, em lugar de 15 gr de café e 15 gr de cacau, chocolate ou 5 gr de chá. Em lugar de 30 gr de gordura, 30 gr de azeite ou toucinho. Para obter variações nas comidas, foi necessário escolher para a comissão de cozinha, pessoas que tivessem prática, vontade de trabalhar e, em geral, um espírito prático. Também deviam saber falar bem o português. Vamos então à eleição da comissão

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de cozinha. Homem prático é o Sr. José Wissmann. Ele é o sobrinho do proprietário do hotel “Metropol” em Lisboa e era chefe de mesa no mesmo hotel; o irmão mais velho ajuda-o. Esse último tinha a direção do grande hotel em Buçaco. Os outros dois membros da comissão são os srs. Appelt e Hoeppel. Como está entre nós um cozinheiro, não tem grandes dificuldades e a cozinha pode começar a funcionar. Neste primeiro dia, jantamos ainda na cantina dos sargentos. A comida não era muito bem preparada, mas ainda assim soube muito melhor que a bordo. Houve sopa, carne assada com batatas e vinho. Na terça-feira, 2 de Maio, começamos a cozinhar. Ainda no primeiro dia, segunda-feira à tarde, chegaram os colchões e almofadas de bordo do “Sagres” e tínhamos assim camas boas. Toda a tarde passamos com passeios nas proximidades do castelo. Logo no dia seguinte (terça-feira) de manhã, chegou um telegrama que redeu a liberdade aos srs. Stüve, Hoeppel e Schütze.

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O sr. Stüve obteve a liberdade por ser cônsul americano. O sr. Hoeppel está doente do coração e o sr. Schütze é manco, de maneira que os dois últimos não são aptos, para o serviço militar. Como o sr. Hoeppel pertence à comissão da cozinha, fui eu o escolhido para o substituir. O trabalho da comissão é o seguinte. De manhã, às 7h, vão dois membros à cidade fazer as compras, mas acompanhados por um oficial. A lista das compras já está composta no dia antes, segundo as tabelas acima citadas. O terceiro sócio fica na cozinha para conferir as compras que os soldados trazem para cima. Este terceiro sócio também tem de observar a distribuição de café às 8h. A distribuição das comidas ao almoço e ao jantar é feita pela comissão completa. Almoçamos ao meio- dia e jantamos às 6h da tarde. Às duas horas da tarde, é sessão, onde então são compostas as listas das compras para o dia seguinte

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e onde se discutem propostas de melhoramentos. O nosso refeitório é uma antiga igreja já muito arruinada. As duas mesas de 10 metros de comprimento foram feitas por nós, tanto como os bancos. Para as mesas, comprou o sr. Harting as toalhas. Para a decoração, servem, nem sempre, mas às vezes, 4 grandes ramos de flores do campo. O serviço da mesa é feito por quatro criados; além disso, ainda há um criado para vinho e pão. O serviço da cozinha faz o cozinheiro e o seu ajudante e dois descascadores de batatas. Todo esse pessoal é pago por nós e para obter o dinheiro, paga cada um de nós uma quota mensal de 1.200 reis. Agora, quando escrevo isto, estamos aqui há 6 semanas e essa organização funciona muito bem. Por exemplo, quero citar alguns “menus”. Ontem, domingo: 8h da manhã, 0,4 ltr. de cacau, feito com leite, 6 bolachas e pão à vontade: Almoço Fricassee de vitela, bifes e batatas fritas: Jantar: sopa de carne com aletria, Ragout polaco,

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carne estufada com batatas e couve (Schmorkohl). Hoje houve o seguinte: 8 horas, café com leite e açúcar e pão à vontade: Almoço: feijão verde guisado com carne e almôndegas com batatas. Jantar: Sopa de carne, sardinhas com molho de tomates, carne assada com batatas e salada de feijão verde. Bem! Agora quero tornar a descrever os acontecimentos a seguir. Todos os dias temo-nos que apresentar duas vezes. Formamos em duas filas, o sr. Harting conta-nos, e faz então a sua observação ao oficial de serviço. Na ocasião desta apresentação, são publicadas todos as ordens nossas. As apresentações têm lugar pouco antes do meio-dia e às 6 horas da tarde. O primeiro acontecimento de interesse foi a chegada do vapor “Roma”, no dia 5 de Maio. A Roma vinha de Lisboa e tinha correio, mas para mim nada, nem um postal. Foi para mim um dia de tristeza e aflição. 15 dias já sem

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noticias nenhumas da Laura e dos pequenos e então as saudades deles crescentes de dia por dia. Tinha vontade de estar sozinho e não ver ninguém e chorar todo o dia. Deus sabe como quero tanto a Laura, como os pequenos, mas parece-me que as saudades do mais velho, do Ernestinho, sobressai tudo. Não se passa nem uma hora sem me lembrar dele. Mas como tudo passa, assim também passou isso e trabalho é o melhor médico para coisas semelhantes. O movimento e a atividade da comissão distraem-me depressa. No dia 6 de maio, fui com mais dois camaradas, o sr. Rindfleisch, professor na escola académica em Lisboa e o sr. Siggelkow. I. Eng., do vapor Schwarzburg, buscar flores. Nessa ocasião cheguei a conhecer bem o Monte Brasil. Os outros dois senhores serviram- me de guias, pois o serviço na comissão não me tinha deixado vaga para passeios maiores.

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Nós três encontramo-nos assim, e harmonizamos muito bem. Muitas vezes tem cada um a sua opinião, e então há discussões, nas quais é raro que alguém se deixe convencer. Do resto, conversa-se pouco nos nossos passeios, cada um tem as suas ideias e pensamentos e parece que existe entre nós um compromisso que não permite conversas banais. O dia 7 de Maio foi um domingo. As nossas mesas de jantar ficaram acabadas na 6ª feira e é natural que nós quiséssemos dar uma vista domingueira ao nosso refeitório. Obtivemos um resultado bastante satisfatório, somente a igreja já no seu estado de meia ruína deu um meio pouco próprio para o fim desejado. As mesas eram a primeira vez cobertas com as toalhas riscadas de azul e branco e em cada mesa havia dois grandes ramos de flores do campo que eu mesmo tinha composto.

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Chegou a 4ª feira, dia 10 de Maio. Já antes das 5 horas de manhã, ouvimos a sirene do vapor Funchal, que tinha ancorado na Baía. Vê-se uma alegre excitação na cara de uns e dolorosa saudade nas caras doutros. Pois não há ninguém entre nós que não esperasse notícias, seja da sua querida família, ou seja de amigos. Às duas horas da tarde, entregou-me o nosso alferes duas cartas e um telegrama da Laura. Lendo as cartas, fiquei a tremer de excitação e impotente raiva. Deus no céu! Não há um raio que destrua, que escangalhe estes marotos, estes cães e malandros d’um governo? Estes ladrões e tortureiros, que são a culpa que um pobre coração de mulher se aflija e torture numa infinita saudade pelo mais querido que tem, que se curve numa profunda dor, em dolorosos cuidados pelo mais caro que pertence somente a ela.

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No primeiro momento, lembrei-me de mandar vir para cá a Laura e o Ernesto. Muitos dos meus camaradas me aconselharam o mesmo. Mas depois de o telegrama estar feito, lembrei-me que não fazia bem. Como, se por um mau acaso, o navio fosse afundado? E mesmo aqui ainda não é tudo como devia ser. As condições higiénicas deixam tudo para desejar. Lavatórios, banhos e retretes ainda estão no estado mais primitivo, parcialmente piores que a bordo do Sagres. A responsabilidade sobressai então e eu resolvo-me para “Não! Ainda falo com o sr. Harting sobre essa questão e também ele é da mesma opinião. Um outro caso era se o governo mandasse a Laura para cá, então ela tinha de se resignar e entender-se com a vida de cá. Logo de princípio passariam-se os dias um igual aos outros. A única variação que eu tinha eram as compras na cidade e alguns passeios no Monte Brasil.

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Lá encontramos depressa alguns sítios tranquilos e idílicos onde se podia agradavelmente conversar e sonhar. Ai, sim. sonhar! Sonhar de tempos felizes passados, e de um dourado futuro. Seremos realmente ainda felizes? Essa guerra terrível não deixará também em mim sinais que jamais me permitem gozar d’uma felicidade contente e alegre? Não quero mais seguir essas ideias. Às vezes, estando sentado e escutando o rugir e murmurar do quebrar das ondas 200m abaixo de mim, estou-me lembrando dos meus irmãos que também estão lá fora nos campos de batalha, prontos para deixar a sua vida pela nossa pátria. Sou eu melhor do que eles e porquê? Nós todos aqui, porque somos melhores do que aqueles que em batalhas tormentosas e sangrentas deixam as suas vidas pela honra, a liberdade, a grandeza da Alemanha. Parece-me que estou então ouvindo uma voz que me diz:

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“Esteja contente que tudo isto é assim, seja feliz que tu não precises dedicar a tua vida.” Todas essas ideias sugerem-me um medo, um temor que me oprime e enche de preocupações e cuidados. Estes sentimentos oprimidos só me deixam, quando penso, que também para nós chegara tempo e hora de combater pela nossa pátria, é claro que as armas dessa guerra vão ser outras e as batalhas não serão sangrentas, mas, por isso, não menos veementes. Acredito sinceramente que muitos, os quais até agora mal se lembraram da sua nacionalidade alemã, sejam acordados pela guerra e resolverão tomar uma parte ativa em favor da sua pátria. Ao menos se lembrarão o que eles devem à sua pátria, mesmo em tempos de paz. Durante os 8 anos que eu estou no país, tenho visto casos singulares. Chega um rapaz novo de 22-25 anos a Portugal. As condições de vida na sua pátria pareceram-lhe apertadas demais e ele espera no estrangeiro um avanço mais rápido.

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35: Este rapaz tem infalivelmente mais coragem, mais inteligência e mais atividade que a qualidade média dos homens. Pois se ele fosse temeroso, nunca teria a coragem deixar as saias da mãe “pátria”. O que é que acontece agora? Ele está na cidade, quando se casa ordinariamente. As comidas são excitantes, o vinho ajuda, e em consequência está o corpo quase sempre num estado desejante. As mulheres são calorosas, de formas cheias e desejosas. Ele ainda resiste. O nojo e o medo, os resultados da educação ou causados por motivos religiosos ainda o retêm ou o resguardam de um livre concubinato. Mas este estado não é demoroso. O clima quente torna o pensar lógico em apatia e oprime depressa qualquer resistência psíquica. Se os seus meios lho permitissem, talvez casaria, mas a maior parte das vezes é medo da responsabilidade e da liberdade cortada a causa que suprime esse desejo. Ele procura e encontra, ai! até facilmente demais, uma mulher qualquer que

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concorda num concubinato livre. Nessas circunstâncias, é um caso singular encontrar uma mulher caseira. A maior parte delas são umas luxosas e doidivanas. Nem quero falar aqui dos filhos eventuais, pois estes estão completamente perdidos para a antiga pátria. Mas daqui a uns anos, o nosso rapaz está mais que satisfeito da mulher e talvez tem também mais meios. Depressa trata de procurar uma outra e encontra-a; com os tempos correndo, repete-se isso mais uma ou duas vezes. Então, com cerca de quarenta anos de idade, acorda a saudade de um descanso caseiro, de um verdadeiro próprio lar. Ele casa e talvez com uma rapariga alemã. Como podem ser os filhos de um homem que dilapidou o maior tesouro da natureza, sua virtude generativa, num concubinato livre, numa vida fundada no desejo do contentamento dos prazeres sensuais? Estes descendentes não podem ter o pleno valor de homem, usando com isso uma expressão suave. Mas a minha pátria precisa de homens de pleno

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valor e de carácter e não produtos e descendentes de homens, que já têm ¾ partes da sua força gastas e dissipadas. Pessoas que fazem isso devem ser avisadas; o cônsul, o embaixador, o chefe, sendo ele alemão, devem chamá-lo e levar à sua atenção as consequências duma vida dessas. Agora outro caso. O nosso rapaz casa-se nos primeiros anos da sua presença no estrangeiro com uma filha do respetivo país. Os meios são modestos. Talvez vive ele ao lado da capital ou talvez mesmo longe dela, na província. Num belo dia aparece o primeiro filho e com os tempos, chegam mais. O pai talvez tenha vontade de os conservar na sua antiga pátria, mas, para isso, é preciso matriculá-los no consulado, isto causa incómodos, eles devem ser batizados religiosamente, são precisas traduções, as quais custam dinheiro, ergo, para evitar incómodos e despesas, ficam os filhos com a nacionalidade do país. Perdidos! Agora chega o

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ponto mais difícil. Os filhos talvez sejam matriculados no consulado, mas agora chegam à idade de frequentar a escola. Quase em todos os países há escolas alemãs, mas a frequência dessas escolas é completamente impossível para os filhos de famílias modestas (serralheiros, tecelões e vidreiros, chauffeurs, etc.) se elas não vivem mesmo na cidade ou seus arredores, onde a escola está sita. Primeiramente, o pai não pode pagar as contribuições para a escola e, em segundo lugar, quem paga a pensão ou respetivamente as viagens para a escola e vice- versa? Se todas as crianças de descendência alemã pudessem obter a fortuna da educação alemã, muitos elementos preciosos salvar-se-iam para a nossa pátria, para a nossa Alemanha. Resultados dessa maneira podemos obter se os alemães que têm os meios suficientes e também, até em primeiro lugar, o governo contribuíssem para um fim tão desejado. Tudo isto nem cá pertence, mas às vezes tenho

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essas ideias, pois dói-me de ver tanto sangue alemão perdido, desperdiçado, como adubo artificial para a civilização dos outros novos decadentes, respetivamente, atrasados. Pronto, voltaremos à ilha Terceira. É natural que estou aqui em relações com os habitantes de Angra. Pude constatar que a maior parte deles é germanófilo. Também ainda são monárquicos e muito religiosos. No dia 10 de Maio apareceu aqui o boato da ocupação de Dwinsk. Todos ficaram contentes e alegres, exceto alguns, eu também, que duvidaram da verdade desse boato. No dia 13 de Maio, pediu o sr. Schmidt licença para visitar um médico por causa do mal-estar da esposa dele. Aproveitou a ocasião, alugou um carro e foi de passeio a S. Mateus, um lugar de uma légua distante daqui. Isso causou uma grande indignação entre nós. Ele recebeu uma severa repreensão

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do general e o que é o pior é que nós agora estamos tratados com mais rigor. O proceder desse sr. chamou entre nós uma grande indignação, que certamente não contribui para diminuir a malquerença do sr. Schmidt. Os oficiais que nos acompanharam de Lisboa também têm uma posição dificílima, pois os oficiais de cá mordem-se de inveja, e põem aos nossos os maiores obstáculos que podem arranjar. Os nossos oficiais não podem fazer nada sem encontrar a oposição do coronel, comandante do castelo. No dia 15 de Maio, mudei de quarto mais o sr. Siggelkow. Ocupamos agora um quarto com mais o II e III. Engenheiro do vapor “Schausburg”. Temos aqui melhor ocasião para nos lavar e, em primeiro lugar, somos só quatro pessoas num quarto. A nossa nova habitação temos arranjado bem. Cadeiras ou um lugar parecido não há. As mobílias lá existentes são: as nossas camas, uma mesa, um banco

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para duas pessoas, e dois bancos para uma pessoa. O lavatório, que é feito de madeira, está na cozinha, que está pegada ao nosso quarto. Para mim, fiz uma mesinha de cabeceira, dum velho caixote. Temos iluminação elétrica. No dia 18 de Maio, chegou a notícia duma grande vitória em “Soissons.” Outra vez o mesmo efeito, grande alegria de uns e dúvida doutros. No dia 22 de Maio, deixei o meu lugar na comissão, pois os outros srs. também devem trabalhar um pouco. Queria então começar logo esse livro, mas no dia seguinte pediu-me o nosso capitão para arranjar um pequeno jardim que estava muito abandonado. Não podia bem dizer que não, pois tanto o capitão, como os dois alferes são a amabilidade em pessoa. No dia 20 de Maio, apareceu o sr. Stüve e perguntou-me se eu sabia arranjar

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estações de telegrafia sem fio. Como não podia dizer que sim, sem mais nem menos, explicou-me então que se tratava de uma estação existente em Angra, que era propriedade particular, mas que não funcionava bem, e por causa disso recebíamos somente telegramas mutilados. Ofereci-me então para experimentar a reparação. Passados dois dias, disseram-me que a estação já tornava a funcionar, foi isso então que me fez desconfiar. Conversei com o sr. Harting sobre esse assunto e nós dois concordamos que as notícias não eram acreditáveis ou, ao menos, necessitavam a maior desconfiança. No dia 21 de Maio, chegou a notícia que o sr. Dr. Hasse podia voltar ao continente. Que mistérios há com este senhor não sabe ninguém. Ele quer ter sido oficial na marinha turca, mas como ele enjoou logo nas primeiras horas da viagem, disse ele então que foi oficial da cavalaria.

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Mal chegado aqui, começou ele a fazer reclamações, nada lhe servia, nem o quarto, nem a comida, nem nada. Poucos dias depois de cá estar, fez um requerimento em que provou a sua “nacionalidade austríaca”. Com uma palavra, ele é um ladrão de marca. Ele também foi o tal que nos trouxe aquelas notícias de vitória. No dia 26, chegou o vapor S. Miguel, que trouxe ainda mais nove alemães, os últimos que ainda apanharam. Um deles tinha um jornal (“A.B.C.”) muito germanófilo do dia 14 de Maio. Este jornal devia trazer notícia da queda de Dwinsk, mas não encontrámos nada; foi isso uma prova que o sr. Hasse nos tinha enganado muito regularmente. Todos estavam escamados e o sr. Hasse teve muita sorte de não apanhar uma boa carga de pancada. No dia 28, participou o Sr. Harting que era preciso pagar as quotas para o mês de Junho

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do seu lugar de presidente. Como a gente já estava bem informada, tínhamos feito os nossos preparativos. O sr. Siggelkow pediu àqueles que estavam de acordo com o sr. Harting para se porem do outro lado da igreja e, vejam lá, todos correram para aquele lado. Isso pareceu então demais e gritos como “fora os cobardes, fora com as línguas compridas”, etc. soavam, mas foi preciso chamar nomes para os obrigar a sair. Um dos nossos alferes leu-lhes então um grande sermão e disse-lhes que a comida era boa e ele preferia comer das nossas refeições se as circunstâncias lho permitissem, mas infelizmente não podia fazer isso. Pedimos então ao Sr. Harting para aceitar de novo a chefia, e ele cedeu. Ficou então tudo como estava. No dia 5 de Junho, foi o dia dos meus anos. Raras vezes tenho-o passado

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tão agradavelmente e se não fossem as saudades da Laura e dos filhos, teria-o passado ainda mais alegre. De manhã, às 8 horas, quando cheguei com o meu café, já encontrei a mesa composta. Os meus camaradas de quarto mandaram fazer dois bolos, o sr. Appelt, antigo colega da comissão, ofereceu-me uma garrafa de vinho da Madeira e o cozinheiro tinha feito um ramo muito engraçado de batatas, cenouras e outros legumes, recortando-os de maneira que fingissem flores. Às nove horas, chegaram então os snrs. Harting e Hölzer para me dar os parabéns. O snr. Harting deu-me um quadro de Angra e o snr. Hölzer duas garrafas de vinho do Porto em nome dos seus colegas de quarto. Depois, ainda veio o snr. Schunk e trouxe-me ½ dúzia de charutos Dannemann.

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Depois do almoço, convidei todos aqueles snrs para um copo de vinho do Porto, e depois fomos todos tomar o café para o quarto do snr. Hölzer e Ebbinghaus. Às quatro horas da tarde, fomos então tomar banho no mar. Eu fui a primeira vez e gostei imenso. As ondas eram bastante altas e levaram a gente como num baloiço. Fiquei encantado. Fui então todos os dias. É aqui o melhor divertimento que eu conheço. Na quarta-feira, dia 7 de Junho, era o dia de anos do snr. Ebbinghaus. De tarde, houve café e bolos, para que eu também fui convidado. Nessa ocasião, apareceu o nosso alferes Leal e trouxe-nos a notícia que, no dia 26 de Junho, chegariam cá mais 175 alemães. Ainda disse que o telegrama era da ilha de Madeira, mas não sabia se os 175 alemães esperados eram

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todos dali ou também doutros sítios. Nós não estamos nada contentes sobre esse aumento, mas esperar e tomar chá. Dia 11 de Junho, domingo do Espírito Santo. Uma festa de Espírito Santo com tanta chuva ainda não vi na minha vida. Os snrs. Harting, Hölzer, Ebbinghaus e eu tínhamos combinado ir ao banho às 7 menos um quarto da manhã. Como já chovia às 6 horas, é claro que não me levantei, mas eles não se importaram com isso, puseram-me fora da cama e às 7 horas fomos então à praia. Para lá, ainda escampou, mas mal estávamos na água, começou a chover a valer. As ondas eram enormes; ainda assim, experimentei nadar, mas já a segunda onda deitou-me à praia e lá rebolava então entre as pedras e ervas d’água (limos) para o grande gáudio dos outros senhores. No caminho da praia ao castelo, chovia como deitassem com

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potes; quando cheguei a casa, tive que mudar a roupa, pois eu estava molhado até à pele. Consequência: uma Nevralgia nas costas e nos braços, que durou quatro dias. Só na 6ª feira tornei ao banho. Choveu todo o dia horrivelmente. Durante o almoço, caiu um grande bocado do teto da igreja, felizmente sem ferir ninguém. Ontem, no dia 17 de Junho, recebemos a notícia que o vapor “Porto Santo”, também um dos roubados, partiu de Lisboa no dia 16, por isso, pode cá estar no dia 21. De razão, devia ele ter partido no dia 5 de Lisboa, mas não pôde sair por causa d’uma greve, segundo dizem. Espero saudosamente correio da Laura e da C.U.F. As saudades da Laura e do Ernesto crescem de dia por dia; parece-me bem

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que ainda os mande vir para cá. Mas, primeiramente, como tudo aqui se desenvolve quando chegam cá os outros 175. Ontem disse-me o nosso capitão que tinha vindo uma licença do Ministério da Guerra que nos permite cá trabalhar por dinheiro. Na eletrotécnica, não posso cá fazer nada, por causa disso quero ver se encontro alguma coisa para jardineiro de estufa, pois tenho conhecimentos suficientes para esse emprego. Dinheiro, já não tenho há que tempos; creio a minha casa mo mandava, mas dinheiro ganho sempre é melhor que dinheiro dado ou emprestado. Hoje domingo, 18 de Junho, foram todos os relógios uma hora adiantados. De manhã, às 10h, fomos ao banho, o resto do

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dia aproveitei para pôr-me em dia com esse livro, quer dizer, só com a parte alemã. Na próxima semana, tenho muito que fazer. O snr. Harting faz anos no dia 25 (próximo domingo) e eu quero fazer uma decoração de mesa, mas em termos, também isso pertence à arte de jardineiro. Hoje, 6ª feira, dia 23 de Junho, chegou enfim o vapor que já devia cá estar no dia 10. Só recebi uma carta da Laura e uma outra do snr. Mello & Sousa. Essa última é de grande importância, pois tirou-me de grandes cuidados. Também a carta da Laura contém uma notícia boa. Domingo é o dia dos anos do snr. Harting, já estou no meio dos preparativos. Sábado, 24 de Junho. Recebi ainda duas cartas da Laura e dois retratos dela com os meninos. Foram esses retratos os causadores duma grande alegria para mim.

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Também só as cartas já me fazem alegre, mas a maior parte das vezes causam-me muita tristeza. Resolvi hoje definitivamente mandar vir para cá a Laura e o Ernestinho. Além dessa correspondência, recebi ainda uma carta do José Alves, um dos meus empregados. Os meus bons amigos, Paulo Koskowski e Jonny Haberstork. Estes também estão mal. Vivem no vapor Frankenwald em Bilbao, não têm vintém e já estão há quatro meses sem notícias das suas famílias. Domingo, 25 de Junho. Dia dos anos do Sr. Harting. A decoração fez um efeito lindissimo. Todos estavam admirados como eu arranjei aquilo com tão poucos meios. Para a tarde, foi convidado para o café, passamos umas horas bem divertidas. Segunda-feira, 26 de Junho. Chegou o vapor S. Miguel. Recebi mais correio da

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Laurinha. Também chegaram 20 alemães da ilha de Madeira (1.ª prestação dos 175). Estamos agora 108 pessoas. Estes novos sujeitaram-se, sem mais nem menos, à nossa organização. A semana toda passou-se com escrever cartas; o S. Miguel partiu ontem, dia 30 de Junho. Hoje, sábado, 1.º de Julho 1916, 6 horas da manhã, ancorou o “Roma” na baía e partiu já às 10 ½ da manhã. Nós vimo-lo ir quando nós estávamos no banho. Hoje, no banho, estive numa situação bastante difícil. Ao nadar, achei-me repentinamente entre umas grandes pedras que ainda estavam cobertas de água. As ondas iam bastante altas e fortes, uma delas atirou-me contra uma pedra onde me esfolei bem num joelho. Com o pé esquerdo fiquei preso entre duas outras pedras. Justamente neste sítio quebravam-se

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as ondas, de maneira que eu estava continuamente debaixo de água e espuma. Enfim, depois de passar cinco a seis ondas por cima de mim, consegui livrar-me e cheguei bem à praia. Não estava nada contente, pois nadando está a gente uma bola para o jogo das ondas. Estando a gente em águas fundas, é muito agradável deixar-se balouçar. Aquilo vai tão suave e agradável como num berço. O “Roma” tinha trazido correio e eu recebi jornais espanhóis até dia 17 de Junho e duas cartas do meu pessoal. O meu sucessor parece não gostar do lugar. Eu não me admiro disso, pois aquela posição não é tão simples como parece. Para mim, é isso talvez muito bom, pois assim reconheceram melhor o que…

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eu tenho feito para a casa. Quinta feira, 6 de Julho 1916. Ontem à tarde, às 6 horas, trouxe o nosso capitão uma carta do general, na qual este nos roga de cumprimentar a bandeira portuguesa. O sr. Harting respondeu-lhe negativamente. Disse-lhe que não podíamos cumprimentar de maneira nenhuma a bandeira duma nação que nos tira quase a camisa do corpo. Que o sr. capitão fizesse o favor de dizer ao sr. general que ele mandasse uma ordem definitiva a esse respeito, então ele veria como nós executaríamos essa ordem. Nos últimos jornais de Lisboa, encontramos notícias que também a propriedade particular, como mobílias, roupas, livros, enfim, tudo, ia ser vendido ou já o estava parcialmente. E então ainda querem que a gente cumprimente aquele trapalho? Nunca! Antes preso com água e pão.

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Sábado, 8 de Julho. Ontem aconteceu uma coisa que seria melhor se ela não tivesse acontecido. Alguns senhores de nós, certamente aqueles que querem pertencer à classe superior e educada, embriagaram-se e cometeram excessos nojentos e abomináveis. Com isso não quero julgar ninguém que em certas ocasiões bebe um copo a mais, mas na situação em que estamos agora, de maneira nenhuma deviam acontecer coisas semelhantes. Não é admissível que nós, como pertencentes ao primeiro, ao mais heroico povo do mundo, nos portemos assim e que demos aos Portugueses um espetáculo dessa qualidade. É detestável nos tempos de agora fazer uma dissipação dessas e deixar ganhar tanto bom dinheiro aos nossos inimigos. Esse dinheiro nos fará falta depois da guerra e era melhor juntá-lo para

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aqueles que deixaram no campo da batalha a sua saúde e que lá foram mutilados. Quando hoje o sr. Harting os repreendeu, diante de nós todos, chegou o pouco conhecimento deles para a nossa situação a tal ponto, que se sentiam insultados, e resolveram não falar mais com o sr. Harting. É triste que tenham de acontecer coisas destas. Segunda feira, 10 de Julho 1916. Ontem tivemos a nossa primeira “Tarde de Recreio”, que foram executados pelo grupo dos nossos atores da sociedade cantora “Sempre alegre.” Declamações, canções, peças de música e versos seguiram-se uns aos outros, alguns sérios, outros alegres. A orquestra compõe-se da seguinte maneira: Um acordeão, duas harmónicas, um bandolim, uma rebeca do diabo (cruzamento artificial de Bombo, pratos, caixa e tamborete).

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e um triângulo. As representações levaram acerca de 3 horas. A casa de espetáculo foi naturalmente a igreja. A “apsis” (abside) serviu de palco e estava decorada com grinaldas de folhas e uma bandeira alemã. A nave geral estava ornamentada com grinaldas de papel de cor e bandeirinhas com as cores alemãs e as dos nossos aliados. Quinta feira, 13 de Julho 1916. Ontem à noite, lemos, num dos jornais de cá, a notícia que tinha chegado um submarino alemão a Norfolk, porto norte-americano. Esperemos que seja verdade. Gostava de ver as camas de Asquith e Grey. Terça feira, 25 de Julho 1916. Ontem, na ocasião da eleição da comissão, soubemos, que 20 pessoas se querem separar e alimentar-se à custa deles. Que se vão em paz, nós não morreremos

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à fome; crítico pode ser isso se o nosso cozinheiro se foi com eles e nós ficamos sem nenhum. Hoje, ao meio-dia, despediram-se os oficiais que nos tinham acompanhados para cá. O capitão agradeceu-nos a nossa ajuda em todos os seus trabalhos, e apresentou-nos os novos oficiais, desejando que continuássemos a passar bem. Tenho pena desses senhores, apesar de serem os nossos inimigos. Eles têm uma sorte muito incerta diante de si. Amanhã esperamos o S. Miguel. O S.Miguel chegou pontualmente. Para mim trouxe só correio da Laura e um postal do Ernesto e outro do João Silva. Toda a minha correspondência para o sr. Mello & Sousa perdeu-se, pois eu não recebi nem resposta, nem dinheiro. É muito triste estar assim na incerteza.

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No dia 26 de Julho, às 6 horas da tarde, participou-nos o sr. Harting que tinha obtido a sua liberdade. Ele pode estar contente que chegou a esse ponto, nós desejamos-lhe tudo o que é bom e que chegue sem novidades a casa da família. Preparávamos uma pequena festa de despedida para o domingo, dia 30, no qual o sr. Harting nos havia de deixar. Eu decorei-lhe o lugar e a cadeira com flores. Na cadeira pus, num fundo de preto, branco e vermelho (as cores alemãs) com flores, as palavras “Lebe Wohl!” Depois do almoço houve uma apresentação festiva pelos nossos atores, cantores e músicos. Ao almoço, eu já tinha dedicado algumas palavras de despedida ao sr. Harting. As minhas palavras não encontraram o aplauso máximo dos outros, mas o da grande maioria. Pois também aqui há, infelizmente,

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grandes diferenças nas opiniões, causadas pela diferença das classes de sociedade que aqui se encontram. Infelizmente, essa é a verdade, e a gente tem de ver como se entende. No domingo à noite, às 8 horas, partiu o sr. Harting do castelo. Até ele desaparecer, acenávamos com lenços e chapéus o último “Lebe Wohl.” Todas as senhoras tinham lágrimas nos olhos, também os meus se humedeceram. O sr. Harting soube conquistar as simpatias pela sua justiça e amabilidade. Quem sabe como seguirá isto agora. Os primeiros sinais não são de confiança, apesar de o sr. Wallenstein ser o sucessor do sr. Harting. O sr. Wallenstein é o cônsul alemão que estava em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel. Creio que este senhor é bondoso demais para um lugar daqueles. Bem, isso já veremos hoje, pois ontem alguns senhores arranjaram uma merenda de sardinhas

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fritas e assadas. O ponto geral era a bebedeira e alguns se embriagaram de tal maneira, que num dos quartos houve pancada a valer; o que apanhou pode agradecer a sua sorte, que o deixou ficar com os olhos inteiros. Às 11 horas da noite, ainda foi preciso chamar um médico. A esposa do sr. Wallenstein estava excitadíssima, pois o marido dela também foi chamado e foi ele quem evitou que alguém fosse preso. À mesa, já tive algumas discussões, pois alguns senhores já estavam bastante alegres. Eu, francamente, não sou nenhum tristeiro, mas sou da opinião que nós, nesta situação, podemos e devemos evitar semelhantes acontecimentos. Para passar o tempo, arranjei algumas plantas em vasos, ontem en- contrei as primeiras flores de “Belladonna”.

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Sábado, 5 de Agosto 1916. O sermão esperado do sr. Wallenstein foi muito fraco. Anteontem, chegou aqui a notícia de que hoje ou amanhã devem chegar aqui mais 330 alemães das ilhas de “Cabo Verde” e da ilha da “Madeira”. Isso vai ser bonito. Terça feira, 8 de Agosto 1916. Agora é certo. Já no sábado de tarde, às 5 horas, pouco mais ou menos, estava o “Pedro Nunes” ancorado no porto de Angra. No domingo de manhã, começou o desembarque.

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Pouco mais ou menos ao meio-dia, já tinham chegado todos os alemães ao castelo. Havia entre eles algumas caras duvidosas e pouco simpáticas. O que eu sabia de certo era que o nosso descanso e o bem-estar tinham-se passado para sempre. O alojamento não causou grandes dificuldades, apesar de não ser tão bom como o nosso e isso é natural e bem compreensível, pois é muito mais fácil dentro de 3 meses alojar 150 pessoas, do que 330 pessoas em 2 dias. Os alemães que vieram agora compõem-se quase só de tripulações dos navios alemães que estavam em St. Vicente e no Funchal. Os mais graduados deles, como oficiais de navegação e engenheiros, foram alojados em duas grandes salas, de maneira que ficaram cerca de 40 pessoas em cada sala. Agora eles queixam-se de que nós moramos em grupos de 2 – 4 em quartos de tamanho correspondente. Agora querem eles que, dos nossos antigos, saíssem os mais novos

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para dar lugar aos mais velhos deles. Eu, nas condições atuais, não acho diferença entre um homem de 30 e de 40 anos. Das pessoas de 45 anos e mais não se fala, estes podiam ir para Espanha, se quisessem. Alguns já se queixaram da comida, isso então não posso compreender de maneira nenhuma. A comida é muito boa, lembrando-se das condições, nas quais a gente cá está. Onde estará na Alemanha a família que pode, por dia e cabeça, gastar o seguinte: 250 gr de carne, 4 ovos, 375 gr de pão, 1,950 kg de batatas, 75 gr de feijão branco ou ervilhas secas, 750 gr de hortaliça ou legumes frescos de qualquer qualidade, 30 gr de gordura, 0,4 ltr de café, 30 gr de açúcar e 0,4 ltr de vinho? Já deve ser uma família que vive em muito boa situação, mas não a família de um fogueiro ou de um marinheiro. Nós, em casa, mesmo depois de casado, nunca pudemos viver continuamente

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nessas condições. Além dessa quantidade, também a comida é bem feita e a qualidade dos materiais, como carne e pão, é excelente. Para o almoço, temos sempre dois pratos bons. O jantar varia menos, pois temos sempre uma sopa e carne assada ou estufada com uma salada qualquer ou hortaliça (legume). O café não é mau e o pão suficiente. O que se pode querer mais? Como se apresentarão essas pessoas aos seus patrícios na Alemanha? Pois eles durante a guerra não fizeram nada para a nossa pátria. Ao contrário, viveram à custa dela e ajudaram assim a aumentar as cargas. Ao contrário disso, podemos nós, os alemães residentes no estrangeiro, apresentar sempre algum trabalho intelectual e a nossa propaganda, e de maneira nenhuma carregamos despesas sobre a nossa pátria, mas, sim, ainda se juntaram somas bastante grandes para as mandar para lá.

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Longe de mim querer com isto imitar aquele fariseu que se bateu ao peito, dizendo: “Vede, Deus, que eu não sou como esse aduaneiro.” Oh não! Não quero isso, mas eu penso que nós devíamos aceitar essa desagradabilidades sem lastimações, lembrando-nos das desfavoráveis condições em que vivem, os sofrimentos que passam os nossos irmãos e irmãs, os nossos pais e todos os nossos patrícios na nossa tão querida pátria. Mas aí, infelizmente, que poucos, que tão poucos há aqui que se lembram disso. Pusemos agora uma segunda cozinha em funcionamento. Lá também cozinham cozinheiros dos navios alemães. Comemos agora em duas sessões, às 12 e à 1 hora e às 6 e às 7 horas da tarde. Ainda há muito que fazer, mas creio que também nos entenderemos com este resto. Alguns querem as economias que nós fazemos e

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com as quais a gente pagava o pessoal da cozinha e do refeitório, distribuir entre si, para comprar, segundo dizem, roupas, sabão e tabaco. No princípio, não tínhamos economias, ao contrário, ainda tínhamos de pagar da nossa algibeira. Agora nem só, nem pagamos nada, mas sim damos todos os meses algum dinheiro para a caixa de doentes e pobres que o sr. Harting fundou no dia da sua despedida. O sr. Harting pagou 110$000 reis. Pois tudo se arranjava de uma maneira qualquer. Quinta-feira, 10 de Agosto 1916. Hoje é o dia da chegada de um vapor, mas o “Porto Santo”, que deve vir em lugar do “Funchal”, ainda não está à vista. Cá está a gente à espera do correio. Os nossos, que vieram de novo, também já se acalmaram, alguns ainda querem o café de tarde, às 4 horas.

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A alguns já dissemos, no dia dos anos deles, havíamos de lhes dar uma gaiola de pássaro, pois o passarinho já o tinham na cabeça. Essa dor também lhes passará. Quarta feira, 16 de Agosto 1916. Sexta-feira, 11 deste mês, tornou o “Pedro Nunes” de S. Miguel e trouxe o general que tinha feito uma viagem de inspeção; também trouxe o nosso correio, que tinha levado de bordo do “Porto Santo”. Recebi uma carta e um postal da Laura. Estou ansioso para saber como sairá a causa da viagem da Laura para cá. Já tenho dúvidas que ela venha, apesar de não ter perdido as esperanças. Seria agradável e bonito se ela viesse, pois aqui vive-se bem e com uns 15-20 mil reis por mês, pode-se fazer a vida muito agradável. Eu creio que também a Laurinha gostaria de cá estar, e mesmo a vida em convívio

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com alemães seria muito boa para ela e teria certas vantagens. Os recém-chegados separaram-se por completo de nós, exceto 4 famílias, as quais ficaram na nossa secção. Eles cozinham e comem separadamente de nós. Dizem que chegou ontem uma ordem, para arranjar lugares para mais 89 pessoas que hão de vir de Faial. Essa gente é o pessoal da estação do cabo submarino alemão. O que preocupa mais agora é a questão [de saber] se a Laura virá ou não. Estou excitado de uma maneira, que não tenho vontade de fazer coisa nenhuma. Até depois de amanhã tudo se tem de resolver. Deus meu! Seria isso para mim uma alegria se ela viesse!

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Bem, com o vapor que parte no dia 20, amanhã, de Lisboa, a Laurinha não vem, pois se ela viesse, já devia ter recebido um telegrama a esse respeito. Quem sabe se ela mesmo venha com um outro vapor, um dos seguintes? Pois ela tinha tempo suficiente para fazer os seus preparativos, e, como eu vi nos jornais, o patrão também estava em Lisboa, no princípio do mês de Agosto. Quem sabe lá que causas existem para ela não vir? Espero agora as notícias sobre isso no dia 27. Fiquei tão triste, pois já tinha folgado tanto com a ideia que ela para cá viesse, teria sido tão bonito, mas que fazer, sou agora impotente contra coisas semelhantes. Se ainda me pudesse entreter, mas também não tenho com quê, as poucas plantas que tenho estão tratadas num quarto de hora e depois segue o dia comprido e aborrecido. “Dolce far niente” dizem os italianos, “Doce fazer nada”. Mas

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para aturar isso, era preciso ser um filho do Sul; eu, como um filho do Norte, nunca o poderei tolerar por muito tempo. Já tenho escrito à casa para ela mandar a minha ferramenta de carpinteiro, mas a carta, como todas as outras que eu para lá escrevi, não chegou. Agora vou pedi-las à Laura, para ver se as recebo por intermédio dela. Agora estou à espera do correio que há de trazer o próximo vapor.